Foca de Aquário

"Feche a porta, esqueça o barulho, feche os olhos, tome ar é hora do mergulho..."



Desbravando o Paraguai, vou puxando minha carroça, que roça roça o massapé lilás, Uma calça amarela démodé, alpercatas de couro de Ilhama fugida do IBAMA, dedos cheios de anéis e uma camiseta de propaganda. Com meu violão antigo vou seguindo minha canção e lá vou eu então...Bombacha, viola e cachaça... E um sorriso de araque, antes que o heart attack nessas veredas subtropicais, carroça sem jumento é o mesmo que estivador sem cais. Foi-se embora meu jumento, se aproveitou do meu porre, mas meu Deus como ele corre!

De passagem por Encarnación encontro uma mulher mui guapa, ao ver minha crise me acudiu com um velho mapa, uma caneca d água e farta risada, pois nunca vira homem puxando carroça pela estrada. As crianças mangando e de longe ouço uma fanfarra que cresce e vem chegando... Quando olho pro outro lado, tomado de tequila, vejo Armandinho meu jumento em plena roda, no meio da quadrilha. E dançava, e bebia, sapateava de alegria, trazia em si uma cangalha com flores e a imagem de santa Luzia, Armandinho na frente e a procissão atrás, Armandinho imperioso puxando gente que n acabava mais.

"valei-me moça que aquele é meu jumento não recupero nem o regalo” então ela me disse: "É que o povo criou apego ao jumento... melhor comprar um cavalo!"

E esse vento minuano sopra uma dúvida afligente, não achei minha Guadalupe, Armandinho virou gente... O que direi lá em casa? Meu amor casou com outro e eu fiquei com a moça guapa.



Aprendi a duras penas que o meu relógio não marca o mesmo tempo, aprendi da forma mais impactante como quebrar a cara, aprendi a correr atrás do que foge de mim como o diabo foge da cruz, aprendi a calar-me quando o que mais me sufoca seria expurgado por um grito. Dando tapas na cara de um leão faminto, 2 leões distintos, todos os dias, todos os dias.
Aprendi a aprender, aprendi a ser palhaço, aprendi a reaprender, aprendi a guardar meus desejos em garrafa que não quebra, de vidro que não racha, aprendi a guardar em caixa de sapato em voltas de barbante e cadarço, aprendi a amar e a perdoar, aprendi a me decepcionar e a perdoar, aprendi a rastejar e a perdoar, vai perdoar assim longe!

Seria feliz fazendo qualquer coisa simples da vida, dessas que não se precisa de muita labuta cerebral para se atingir o pico vertical do diploma. Seria mais feliz com uma vida besta e “deteriorana”, mandando cartas, proseando numa varanda, aprendendo uma moda de viola. Seria feliz tangendo bois em cavalo de trote marcado, chupando cana, passando gel no cabelo e alfazema para ser cheirado pela esposa na cama. Assistindo a TV sem saber opinar em nada, longe das guerras e atentados, longe de crises de mercado, longe do mal indo a missa, vida boa sem malícia. Ouvindo meu radinho FM na programação noturna, tomando um café quente espantando o sono, acordando de bom grado, sem fastio, sem preguiça com o canto exagerado do galo, alarme mais que moderno, seria feliz se nunca usasse um terno. Seria feliz fazendo qualquer coisa que não fosse as que eu faço, fazendo uma só coisa das que tenho vontade, sempre pela metade. Seria feliz com meus sentimentalismos, com meus reumatismos, minhas falhas de memória, seria feliz mesmo só sabendo contar uma história. Feliz na quixabeira, feliz no xaxado do forró, feliz fazendo fogueira flamejante, feliz ligando uma vez por ano, de um telefonte público pra falar com parente distante, feliz ao lado dela, com aquele sorriso gigante, com boca deslizante... feliz com minha caneca favorita, feliz com uma lambida esquisita de um gato de estimação, feliz de coração e cheiro de alecrim...Eu, meu amor e 3 bambinos no jardim.

Sobre este blog

Há um certo tipo de regozijo eufórico, um resgate de si mesmo em palavras soltas que se comungam a fim de arquitetar um plano B, hoje é dia de chuva no mar...

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